MINHA CASA
- Vitor Muniz
- 2 de fev. de 2015
- 3 min de leitura

Era final de janeiro, e a expectativa de uma boa notícia – que afinal nem seria tão boa assim – pairava como uma névoa, impalpável, disforme, mas real. Quando as listas saíram e, depois de quatro anos ansiando, eu finalmente vi meu nome nela, meu primeiro sentimento foi de alívio: estava dentro. Em seu encalço, veio a dúvida: estaria eu trilhando um caminho de sucesso ou um caminho de frustração? Esse pequeno vácuo de expectativas era assustador. O diálogo de parabenização de minha mãe, minha maior maior investidora nesses quatro anos de cursinho a espera de minha aprovação em medicina, foi animador:
— Mãe, passei na USP.
— Querido, foi em medicina?
— Não, mãe. Odontologia.
— Então não me interessa...”
Após quatro anos miseráveis prestando vestibular e depois de ter passado por um ano de grandes perdas pessoais e depressão profunda eu finalmente desistira. De minha desistência acabei conquistando minha maior vitória em 21 anos de vida: uma vaga numa faculdade pública – numa não, na melhor. Me senti frustrado, e logo depois, envergonhado, lembrei de uma frase de um filme: “milhares de pessoas morreriam para estar no lugar que você desdenha”.
Minha primeira decisão foi entrar de mente aberta na faculdade e me despir de meus preconceitos; "serão mais burros do que eu pela nota de corte ser mais baixa que a de medicina", era uma certeza. Poucas vezes estive tão redondamente enganado. Descobri, um pouco frustrado, que a Fuvest não seleciona. Não da maneira que eu imaginava e que talvez alguns dos leitores imaginem. As coisas dentro da faculdade não são medidas com as mesmas unidades que em qualquer outro lugar todos somos capazes, todos temos nossas virtudes e nossos defeitos e eu não era melhor do que ninguém ali: começava do zero como todos eles. Era um inicio, não um fim, e eu o abracei.
O trote chegou. Via a alegria que eu não sentia estampada na cara de todos os meus colegas; via a festa no coração de cada um e via, também, os abusos. Negar que existiram seria uma mentira, mas a euforia e a alegria disfaçavam o gosto da malicia.
Sempre se fala na mídia sobre trotes violentos. Não posso afirmar que meu trote o tenha sido, no entanto, posso afirmar que houve excessos, e não poucos. Frustrado com meus colegas – veteranos com a síndrome do pequeno poder – rapidamente me despedi das festas. Não tinha humor nem paciência para aquilo.
Logo, o ano começou e logo ele acabou, passou rápido e atropelado e com a convivencia descobri que vários de meus cologas, assim como eu, queriam medicina e foram parar em odontologia. “É o curso dos frustrados”, pensei. Talvez realmente seja e talvez você que esteja aí lendo isso – se é que vai ter essa paciência – também nunca tenha previsto estar parado lendo o meu texto. Talvez também se sinta frustrado como um dia me senti. Mas tenho que confessar: apesar de todas desventuras, de todos os problemas esse curso é lindo! Apesar de haverem pessoas que não serão dignas da saliva necessária para xingá-las, existem pessoas maravilhosas que carregaremos para sempre. Apesar de ter pensado em desistir, também me senti encantado e apaixonado.
Independentemente dos meus sucessos ou fracassos, agora eu tenho uma certeza, esses serão os melhores anos da minha vida. Desistir já não passa pela minha cabeça porque, independente do que eu goste ou deixe de gostar, eu amadureci. Amadurecer é se tornar cada vez mais consciente, receptivo e mais humano e é quando descobrimos que gostar ou não gostar de algo só depende de você.
Sejam bem vindos! Ao Céu, ao Inferno? Queridos, aí a decisão é sua! Que se for o céu, me convidem para curtir com vocês e se for o inferno, me chamem para sofrer com vocês. Somos irmãos agora e estaremos aí para o que der e vier, porque estamos em casa. Vocês entraram para alcatéia!




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